Quem sou eu

Meu nome é Vera Helena. Meu interesse e objetivo consiste em conversar e trocar impressões e experiências sobre Alzheimer. Minha mãe, (foto acima) é portadora desta patologia e acho importante que a troca exista no sentido de acrescentar conhecimentos e gerar espaços para desabafos entre cuidadores, assim como eu. Dentro do que me proponho oferecer, sinto - me capaz de abordar sobre cuidadores, suas relações com o portador e familiares e sobre o cotidiano que envolve a todos os implicados nessa causa. Para saber mais, em cada segmento há uma justificativa desenvolvida com o objetivo de ajudá-lo. Julgo oportuno mencionar que passado algum tempo, percebo que hoje possuo um trajeto impregnado de experiências diversas pois os desafios acontecem todos os dias. A necessidade de dialogar com pares aumenta a cada dia, pois há momentos em que a solidão e a impotência invadem minha vida! Que tal olharmos para este tema com mais proximidade e conversarmos sobre Alzheimer? Pensem nisso e sobre isso...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Estabilidade e Instabilidade.

A linha que passa pela estabilidade é a mesma da instabilidade. Em questão se segundos uma passeia no caminho da outra provocando movimentos adequados para cada situação. No caso da minha mãe, internada há mais de um mês, conforto e quadro estável constituem-se nas palavras chaves proferidas pelos profissionais da área da saúde envolvidos no seu cotidiano. Se por este lado podemos vislumbrar um caminho definido, ou seja, planejarmos a volta para o lugar onde minha mãe vive, por um outro nos vemos impedidas de realizar esse percurso porque estamos aprisionadas pelas exigências do convenio que assiste minha mãe. Com alta há 10 dias, num quadro de fragilidade intenso, portanto vulnerável a infecção hospitalar, nos vemos no aguardo do posicionamento dos entendidos em projetos e coberturas de convênios para sua cliente há mais de 30 anos. Inúmeras sugestões têm sido apresentadas, mas conversar com os responsáveis e definir possibilidades nesse tempo angustiante de espera, tem sido a posição definida por nós, os familiares. Meu cotidiano tem sido vivenciado nas dependências de um hospital, que protagoniza uma dinâmica intensa dentro da finalidade que se destina: dias de muita agitação, outros mais calmos, alguns com falta de funcionários, levando-nos a atuar como colaboradores para o que precisar dentro dos limites do permitido. Nesse sentido, nos deparamos com pessoas alegres, éticas, profissionais e comprometidas com o seu trabalho e função, assim como com outras pessoas mais amargas, insatisfeitas, a atuar com má vontade, levando-nos a perceber que não há diferença das relações que estabelecemos e assistimos no cotidiano dos lugares que frequentamos. Angustiada com essa indefinição busco celebrar cada instante vivido com a minha mãe nos quais sorrimos e nos ouvimos tentando compreender os sons emitidos sinalizando para palavras que nem sempre consigo compreender o significado. Quando isso acontece, faço carinho no seu rosto e canto as suas músicas prediletas e rezamos as orações conhecidas por nós. Como resposta, quase sempre obtenho um sorriso puro e inocente, um olhar singelo em meio a tantos outros que, pelo que percebemos, se direciona aos lugares que só minha mãe consegue pegar carona e viajar....Beijo no coração dos meus seguidores.13.11.14.

domingo, 26 de outubro de 2014

Caminhos, espinhos e carinhos.

Minha mãe prossegue hospitalizada. Treze dias medicada com antibióticos, mas a pneumonia não foi debelada. A palavra que tenho ouvido com certa frequência dos médicos e profissionais que a assistem tem sido CONFORTO. Minha rotina tem sido realizada no hospital a fim de me fazer presente o maior tempo possível ao lado dela. O caminho que temos pela frente apresenta espinhos e carinhos, tudo junto e misturado. Quando percebo que ela se encontra agitada, rezamos e ela se acalma. E quando o seu estado sinaliza para a tranquilidade, conversamos o diálogo possível. Nele, trago à tona situações de alegria das quais quase sempre um sorriso inocente e singelo simboliza a sua resposta. Nesse intervalo permeado de carinho eu me reabasteço e revigoro para juntas cumprirmos o que temos pela frente. Assistir e compor esse cenário possibilita que diferentes sentimentos perpassem meu corpo e mente. Minha agenda tem sido escrita por uma frase que fundamenta o meu cotidiano: um dia de cada vez! No mais, minha vida segue através da esperança edificada num fazer diário. Agradeço aos meus seguidores com ternura e paz. Vera Helena, sempre viva. 26/10/14 

domingo, 19 de outubro de 2014

Caminhos Escuros

Desde domingo, dia 12 de outubro, minha mãe encontra-se internada. Diagnóstico: pneumonia, infecção urinária, seguido de baixa taxa de sódio. Minha mãe, prostrada e nós assustados e impactados. Caso grave, de risco e delicado é o que tenho ouvido dos profissionais que a atendem. Tempo de luta e aprendizado, a valorizar cada instante vivido na incerteza dos nossos passos. Hoje, uma pequena melhora, pois ela não tem piorado. O cenário, limita-se à janela deste quarto de hospital! Beijos e gratidão aos meus seguidores. Vera Helena, sempre viva. 19/10/2014

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Entre o risco e o riso.

Entre o risco e o riso - O cotidiano da minha mãe tem sido marcado pelo silencio e um desconforto visível. Todos os cuidados e procedimentos seguem a mesma pauta. Todavia, isso não tem bastado para reverter o quadro instalado. Nos nossos encontros diários busco me comportar de maneira alegre e participativa independentemente da ausência da troca nos estímulos que ofereço. Fato é que não sabemos o nível de consciência de um portador de Alzheimer, por isso cautela e respeito são elementos essenciais quando se conversa perto do mesmo. Nesse caminho, aprendi que cuidar e organizar os elementos que compõem o universo da minha mãe é o que precisa ser realizado. Nesse fluxo, me alimento e fortaleço entre perdas e ganhos e prossigo dia a dia ... Boas e singelas surpresas! Nestes três últimos dias, minha mãe tem sorrido, verbalizado frases curtas e me beijado em atendimento aos meus pedidos, ainda que por instantes para logo se alojar no "seu mundo". Isso tem me bastado para gerar energia suficiente para realizar o que precisa e deve ser feito a fim de provê-la com o que necessita para seguir nos ensinando a difícil arte de envelhecer e aceitar o fluxo cotidiano. Beijos, paz, bem e muita alegria aos que me seguem. Com gratidão. Vera Helena, sempre viva. 23.09.14 *** Este texto já deveria estar postado há tempo. Não sei o que ocorreu.

Noventa e um anos e a vida possível!

No dia 21 passado minha mãe amada completou 91 anos de vida. Muita história na sua história mesclada de conquistas, alegrias e tristezas! Avaliando este percurso, uma característica surpreende positivamente: a sua saúde! Pois, mesmo diante de tanta fragilidade ocasionada pelas patologias que a acometem ela supera expectativas e derruba teorias! Todavia, há algum tempo ela tem apresentado um quadro de sofrimento visível devido à falta de ar em decorrência da incapacidade de deglutição e de expelir o que fica armazenado nas suas vias respiratórias. Os recursos disponíveis têm sido utilizados como a aspiração e a higiene bucal realizadas várias vezes ao dia. No caso do primeiro, o mesmo tem um limite de uso porque existe o risco de ferir as partes internas expostas a manipulação. Recursos mais específico foram requeridos e estão sendo aguardados, na medida em que dependemos de outras instituições. Assistir a essa cena tem sido desolador e triste mesmo sabendo que minha mãe se encontra cercada de cuidados e carinho por parte daqueles que se relacionam direta e indiretamente com ela. Com a proximidade do dia 21 pensei muito em como celebrar mais um ano da sua bravia e exemplar existência! Fazer o bolo de chocolate conforme me pediu nos aniversários anteriores transformou-se em algo inviável pois há quase um ano ela se alimenta via sonda. Além disso, se irrita e assusta com facilidade quando retirada do seu ambiente. Decidi celebrar junto de três amigas muito queridas cantando as suas canções preferidas, bem baixinho além de termos rezado com ela. O sinal manifestado ocorreu por intermédio do seu olhar a nos acompanhar com os seus vibrantes olhos verdes. Naquele dia particularmente ela se encontrava bastante secretiva, fator de impedimento a outra reação. Cantamos o imperdível "Parabéns para você" com direito a velinha acesa e muito emocionada me retirei do seu quarto. Lá fora, caía uma chuva fina, o ar exalava frescor e cheiro de terra molhada, tendo no chão muitas pétalas de flores coloridas. O calendário sinalizava para o dia da árvore e a breve chegada da primavera. Considerei esse cenário como um presente ofertado pela natureza para minha mãe, que sempre cuidou e preservou das árvores e flores das ruas e casas que vivemos com muito desvelo e força! Saudações carinhosas e permeadas de gratidão aos que me seguem nesse percurso duro, espinhoso e de muito aprendizado frente às inúmeras possibilidades que proporciona aos que decidem caminhar entre dores e amores. Vera Helena, sempre viva. 23-09-2014

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Memória: os velhos e sempre novos registros.

Se há um recurso que recomendo a todos os que se relacionam com portadores de Alzheimer é o de realizar registros de temas variados que compõem o percurso de todo o ser humano. No caso: a infância e nela, o bairro e seu entorno, a escola, professores, os amigos, brincadeiras e os personagens importantes desse período que, com paciência e respeito ao limite do portador vão tecendo belas produções. Tempo de muita fecundidade com as descobertas que essa ação proporciona, sem falar da alegria e aprendizado que ocorrem no decorrer do processo. Muito bom saber das rodas de histórias promovidas pela vovozinha (minha bisavó) a aquecer as noites frias e estreladas daquela São Carlos de tempos idos... Nesse compasso, viajei por outras fases do desenvolvimento da minha mãe, pois colhi relatos da adolescência e idade adulta dentre outras.
Hoje, com o avanço da doença instalada, asseguro que ainda me valho dos fragmentos das lembranças que transcrevi com ela. Exemplo disso ocorreu a 2 dias atrás. A cuidadora do período noturno teve um compromisso impedindo-a de chegar no horário de costume. Como minha mãe tem engasgado com muita facilidade optei em não deixá-la sozinha e fiquei com ela até o retorno da cuidadora. Tem sido raro o dia em que ela tem conseguido proferir algum som e palavra. O seu olhar vivo e esverdeado (cor dos olhos dela) tem expressado sofrimento e exaustão. Busco tranquilidade e alegria nesse momento igualmente difícil para mim. Lembrei-me que numa das gavetinhas do velho criado mudo havia a letra do hino da formatura da minha mãe. Cantei para ela, junto de outras canções que ela sempre apreciou. Fazendo carinho nos seus cabelos percebi que ela se acalmava. Interrompi nossa cantoria por algumas vezes a fim de retirar o excesso de secreção na sua boca, como resultado da impossibilidade da deglutição. Esse gesto de cantar nos possibilita o contato possível pelo qual procuro trazer pedacinhos de realidade diante do que ela ainda apresenta. Assim, nos encontramos e nos amamos no formato permitido pela inexorabilidade do curso da nossa vida, mas sempre vida!
Um beijo a todos os que devotam instantes de carinho com os frutos colhidos no caminho que a vida me concede. Gratidão para cada um dos meus seguidores. Vera Helena, sempre viva - 21/08/14

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O bom senso na lida de cada dia

O bom senso na lida de cada dia - O estado geral da minha mãe inspira cuidados e vigilância realizados em tempo integral. Decisões sobre os procedimentos adequados acontecem com frequência, levando-nos a fazer uso da criatividade e do bom senso. Uma situação vivida nesses dias ilustra essa afirmação. De vez em quando, minha mãe apresenta dificuldade para respirar, engolir e deglutir, promovendo uma tosse intensa e incessante. Com isso, o seu sono se interrompe a todo instante e sua rotina e qualidade de vida ficam comprometidas. E ele, o bom senso deve prevalecer com os recursos que dispomos. Algumas questões: fazer uso de um xarope mesmo que a tosse não se origine de nenhum quadro gripal ou das vias aéreas? Aspirar com todos os riscos que pode acarretar já que a possibilidade de ferir a região é grande? Entretanto, é preciso agir! Conversar com a geriatra me conforta e, de forma compartilhada, definimos os caminhos. Nesse caso, decidimos por um antitussígeno e aspirações pontuais. Assim, buscamos o que nos é possível num universo de práticas inviáveis, a fim de realizarmos o melhor para a minha mãe. Sem mais, eu me despeço com gratidão para os meus seguidores, sempre muito queridos e fiéis! Vera Helena, sempre viva. 08/08/2014.